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Sem ser esquecido

Depois de mais de 50 anos deixado de lado, o Mercado Novo, antigo centro comercial de Belo Horizonte, ganha vida com um belíssimo movimento gastronômico e artístico, preservando toda a sua história e identidade

Foi em uma garagem de bondes abandonados, na Avenida Olegário Maciel, região central de Belo Horizonte, que o Mercado Novo começou a ser construído. O ano era 1946 e a ideia era tornar o local um complemento do famoso Mercado Central e o mais moderno centro comercial da história da cidade.

Inaugurado na década de 1960, no entanto, não teve o prestígio esperado. Durante muito tempo, o empreendimento mal conseguiu se firmar nos andares de cima, consolidando-se como destino para aqueles que buscavam serviços gráficos e ofícios. Ao longo dos anos, porém, comércios diversos, como lojas de roupas, de embalagens, lanchonetes e bancas de distribuição de alimentos também ocuparam o andar térreo. A tradicional cozinha do Bar do Zé Luiz, por exemplo, foi um desses estabelecimentos que ganharam fama, servindo até hoje boêmios na madrugada.

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Embora impressionante, a arquitetura em forma de caixote, com iluminação precária, revela o abandono ao qual o Mercado Novo foi deixado. Por mais de 50 anos, as cerca de 300 lojas foram fadadas ao esquecimento. Até que o grupo da Cervejaria Vilela, que produz a bebida no bairro Pompeia, se encantou com a história do local. “Lembro que, há cerca de dois anos, estávamos no Mercado Novo em uma segunda-feira, às 16h30, e o pôr do sol atravessava os cobogós na parede. Pensamos que não poderíamos sair desse lugar incrível sem fazer alguma coisa”, diz Henrique Gilberto, chef e curador do projeto que mais tarde revitalizaria o mercado histórico.

Intitulado Velho Mercado Novo, o movimento encabeçado pela Cervejaria Vilela deu início ao que hoje é um dos destinos mais inovadores e originais de Belo Horizonte. As lojas antes abandonadas têm ganhado vida com projetos de gastronomia e outras iniciativas artísticas. “Viemos com o objetivo de reocupar esses locais deixados ao ostracismo”, afirma Henrique. “Mas, é importante dizer que não queremos reinventar o Mercado Novo e, sim, resgatar aquilo que não deveria ter sido esquecido.”

Fazer parte do todo

Uma das principais diretrizes do projeto é manter viva a história do Mercado Novo. Para isso, além da estrutura – muitos elementos da ambientação, como pisos e azulejos de lojas antigas, foram preservados –, levam-se em conta as pessoas por trás dos produtos. Dessa maneira, criou-se por lá o conceito de microeconomia, no qual os fornecedores dos novos empreendimentos devem ser os lojistas do próprio mercado, levando-os, inclusive, a melhorar a qualidade de seus insumos.

Além disso, a curadoria procura evitar que grandes marcas e multinacionais entrem no negócio, assim como redes de franquia de restaurantes. Ali, o comensal encontra apenas comidas e bebidas artesanais, feitas com carinho e de maneira sustentável. “O Velho Mercado Novo é a cara de Minas Gerais, é tudo o que representa o estado”, diz Djalma Victor, chef do OssO e da Rotisseria Central, inaugurada em novembro no mercado. “Ele é completamente diferente do Mercado Central que conhecemos. É artístico. É comida antiga, mas apresentada de um novo jeito. As pessoas têm cuidado ao fazer seus produtos.”

Na nova empreitada do chef, localizada onde antes se abrigava um cartório, o ambiente é completamente retrô. O cardápio muda diariamente, e a ideia, segundo ele, é representar a cozinha mineira em sua essência. “Diferente do OssO, é algo muito mais descolado, para colocar minha cabeça para funcionar mesmo”, afirma. No dia da inauguração, foi servido torresmo com queijo da canastra e raspas de limão; fígado na brasa com vinagrete de jiló; e peito de boi curado na rapadura, com polenta de fubá crioulo. “Na noite seguinte já elaborei tutu de feijão com parmegiana mineira, feita de bisteca de porco, e vinagrete de couve. Cada dia tem algo novo.”

Para Djalma, o melhor dessa experiência é, de fato, o contato com os fornecedores. “É algo que mexe com a gente, porque há proximidade. Eles vão a sua loja e você frequenta a deles. Isso para mim é muito legal.”

Celebração da cultura mineira

Um dos corredores, localizado ao fundo do ambiente, foi o primeiro a receber as novas lojas, como a Distribuidora Goitacazes e a Cozinha Tupis – comandada por Henrique –, do mesmo grupo da Cervejaria Vilela. “No acordo da curadoria, uma das diretrizes seria refletir no projeto o ambiente que nos cerca: o Centro de Belo Horizonte”, afirma Henrique. “Quem conhece a capital mineira sabe que as ruas por aqui são repletas de lojas de comércios muito específicos. A loja de parafuso vende somente parafuso, assim como a de ferragem só comercializa ferragem. Por isso, nada mais justo do que fazer o mesmo no Mercado Novo.”

Dessa maneira, cada ocupante do mercado deve vender somente um segmento de produto. “Assim, podemos viver em harmonia, sem competitividade.” Nesse clima de colaboração, enquanto é possível bebericar uma cachaça mineira na Lamparina Cachaçaria, uma cerveja artesanal no Odeon ou até mesmo cafés de origem no Jetiboca, saboreiam-se bons pastéis na barraca Borandá; embutidos na Charcutaria Tapera; quitutes doces e salgados na Copa Cozinha; ou ainda os consagrados sanduíches no Ortiz.

Desde a primeira ocupação, em 2018, em apenas um ano, o número de lojas passou de duas para 40. E a estimativa não para de crescer. Hoje, já se encontram as mais variadas criações gastronômicas, que vão desde receitas de família a combinações inusitadas e surpreendentes. De drinques clássicos a uma casa especializada em licores. “Estamos montando também o Vermelhão, que é um restaurante de almoço, com forno a lenha, feito por três cozinheiras, empregadas domésticas que trabalhavam nas casas dos nossos sócios. Fizemos esse espaço para que elas finalmente tenham um negócio próprio e independência”, afirma Henrique.

A intervenção, diz o chef, representa também o movimento que tem acontecido em Belo Horizonte nos últimos anos. “É uma cidade cada vez mais criativa, autêntica, mas que ainda assim bebe das próprias raízes. E é basicamente isso que temos tentado fazer por aqui, contando um pouco da história desse velho Mercado Novo.”

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Beatriz Albertoni

A paulistana divide-se entre duas paixões: jornalismo e gastronomia. Formada pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, a repórter está na redação de Prazeres da Mesa desde 2015. Adora conhecer histórias, viajar e apreciar um bom show de rock, além de nunca recusar bolo acompanhado de cafezinho.

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