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Borbulhas da Espanha

A casa Freixenet, uma das mais tradicionais na produção de espumantes, segue o método de processo tradicional, o mesmo utilizado em Champanhe, na França

Antes de começar a contar sobre a Freixenet, vamos voltar no tempo. É incontestável a fama da Região de Champagne, na França, na produção de vinhos espumantes de qualidade. Afinal,foi lá que nasceu a bebida como a conhecemos hoje, descoberta quase que por acaso pelo monge beneditino Dom Pierre Pérignon, tesoureiro e chefe de cave, entre 1668 e 1715, da Abadia de Hautvillers, perto de Épernay, no coração da região.

O bom abade observou que os vinhos brancos locais sofriam uma segunda fermentação depois de engarrafados, produzindo borbulhas que estouravam as garrafas e as rolhas, devido à pressão gerada pelo gás carbônico. Para resolver o problema, experimentou amarrar as rolhas com arame, desse modo “controlou a segunda fermentação” e criou o Champanhe. Para nossa sorte, o método de produção se espalhou pelos quatro cantos do mundo, e bebidas de grande qualidade surgem em várias nacionalidades. É o caso dos Cavas espanhóis, colocados no pódio mais alto.

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E, nessa seara, brilha o nome da Freixenet, um dos grandes da vitivinicultura mundial. Visitamos pela segunda vez as preciosas caves da empresa, muito bem instaladas no coração do Penedès, em San Sadurní d’Anoia, ao sul da cidade de Barcelona. O que vimos foi uma empresa moderna, sem deixar de lado a tradição, com grande produção, mas com foco total na qualidade.

São aproximadamente 100 milhões de garrafas produzidas anualmente, sempre pelo método champenoise, com a segunda fermentação na garrafa. Sendo que desde 2018 faz parte do grupo alemão Henkell, o que a tornou a maior produtora de espumantes do mundo, exportando para 150 países.

A origem da Freixenet e do Cava

Em meados do século XIX, a viticultura da Catalunha estava em ebulição e com vinhedos sendo plantados por toda parte. Inspirados pelo sucesso do Champanhe, seus vinhateiros foram até à região, pesquisaram muito e, com ajuda do Instituto Agrícola Catalão de Sant Isidre, começaram a plantar as uvas brancas que mais bem se adaptariam ao lugar. Como por exemplo Macabeo, Xarel-lo e Perellada. As internacionais Chardonnay e Pinot Noir chegaram bem depois.

Já a história da Freixenet tem início em 1861, quando é inaugurada a Casa Sala, por Francesc Sala Farrés. Que, por sua vez, depois foi comandada pelo filho Joan. Apenas em 1911, é que surge o nome Freixenet, fruto do casamento de Dolores Sala, herdeira da Casa Sala, com Pedro Ferrer Bosch, conhecido como senhor Freixenet. A primeira garrafa com o nome, porém, só foi lançada em 1914. Ao visitar suas caves, encravadas a 20 metros de profundidade – obra dos arquitetos Joan Ros i Ros e Juan Torras Guardiola – toda essa história está representada e contada, em quadros, garrafas e nas paredes históricas.

Por dentro da cave

A cave é fantástica. Tem 160.000 metros quadrados e nela repousam 120 milhões de garrafas. O Brasil, que há poucos meses conta com distribuição direta da empresa, consome cerca de 1 milhão de garrafas por ano. A região do Cava conta com 135 municípios, a maior parte no Penedès. Apesar disso, outras localidades espanholas que produzem espumantes também usam a denominação, caso da Rioja e de Utiel Requeña. A obrigação é usar as uvas autorizadas e produzir pelo processo clássico, ou seja, de segunda fermentação na garrafa.

A Freixenet conta com uvas de diferentes vinhedos, mas o mais emblemático é o de “La Freixeneda”, onde está a casa de seu fundador Pedro Ferrer Bosch. Nele, o solo é extremamente calcário e argiloso, sendo dos melhores para as uvas que vão entrar nos principais vinhos da marca. O curioso que nem esse vinhedo pertence à empresa. As uvas são compradas de 1.200 produtores, que plantam e colhem seguindo orientações e acompanhamentos de técnicos da empresa. “Temos uma grande responsabilidade com esses vinhateiros, na compra das uvas, bem como ajudando a cuidar melhor de cada vinhedo”, afirma a enóloga da empresa Gloria Collell.

Além do cuidado com as uvas, a empresa utiliza leveduras diferentes e selvagens para as duas fermentações. Sendo a primeira para agregar qualidade ao espumante. A segunda, mais neutra, para que não interfira no processo.

De olho das tendências do mercado

A Freixenet colocou em 2019 no mercado dois rótulos elaborados no Vêneto, na Itália, um Prosecco e um rosé. “Estamos sempre de olho no que o consumidor quer, e esses lançamentos são vinhos mais leves e frutados, uma tendência que observamos”, diz Martina Obregon, diretora de marketing da empresa. Enfim, seja com essas novidades, ou com um de seus preciosos cavas, a marca é escolha certeira para as celebrações de fim de ano. Um brinde!

As uvas usadas na Freixenet

Cepas originárias da região e outras internacionais entram nos Cavas da Freixenet. São elas:

Macabeo

É a variedade mais popular da região, pois vai muito bem em climas mais frios. Tem acidez média, aporta corpo e frescor ao Cava. Seu aroma é bem floral.

Xarel-lo

Autóctona do Penedès é a mais produtiva da região. Resulta em mais álcool e aporta ao Cava corpo e potência. Por fim, no vinho, mostra notas de maçã-verde, cítricos como o limão, e tropicais, como o abacaxi.

Parellada

É responsável pela delicadeza e aroma do Cava. É cultivada nas regiões mais elevadas da Catalunha e é a mais tardia em amadurecer. Como resultado, tem boa acidez, e aromas que misturam cítricos e toques florais. É considerada a mais delicada delas.

Chardonnay

A branca mais internacional do mundo, originária da França, entra muito bem nos Cavas Freixenet. Oferece corpo e suavidade.

Pinot Noir

Entra em algumas linhas, agregando um pouco de cor e finos aromas frescos e frutados, que lembram cereja e morango.

Trepat

Outra variedade da região, é difícil de ser conduzida, pedindo solo específico e condições climáticas especiais. Entra apenas em Cavas rosados, emprestando aromas de frutas silvestres.

Principais Cavas vendidos no Brasil

  • Cordón Negro – O rótulo mais conhecido da Freixenet utiliza apenas as uvas tradicionais da região. Além disso, envelhece entre 12 e 18 meses. Leve e cheio de frescor.
  • Carta Nevada – Muito fresco e frutado, envelhece entre 10 e 14 meses, floral e frutado ao paladar.
  • Vintage Reserva – Seu envelhecimento varia conforme a safra, mas quase nunca é inferior a 18 meses. Aromas e sabores cítricos abundantes, notas de tostado, ótima acidez e equilíbrio perfeito.
  • Elyssia Gran Cuvée – É resultado de uma bem equilibrada mistura de Chardonnay, Pinot Noir, Parellada e Macabeo. Envelhece por no mínimo 18 meses, ganhando grande complexidade, acidez perfeita e grande intensidade.
  • Elyssia Pinot Noir – Já conquista por sua cor rosé brilhante, sem exagero; ademais é cheio de frescor e com abundância de fruta vermelha no aroma.
  • Reserva Real – Aqui se trata de um espumante especial, envelhecido por 30 meses; complexo, rico em fruta e frescor, com notas de amêndoas e de tostado. É feito apenas com as uvas típicas para Cava. Ideal para acompanhar refeições. Curiosidade: foi criado para celebrar a visita dos reis da Espanha à Freixenet, em 1987.

*Reportagem publicada na edição 195, de novembro 2019, de Prazeres da Mesa

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Ricardo Castilho

Ricardo Castilho é diretor editorial de Prazeres da Mesa

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