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Uma agradável surpresa

Encontrar o enólogo Dirk Niepoort andando pela rua e, com ele, degustar alguns rótulos especiais foi uma de minhas grandes experiências no mundo do vinho

No início do ano, em um sábado bastante frio na cidade do Porto, em Portugal, por sugestão do amigo Alfredo Rente e sua mulher, Susana, seguimos, minha mulher e eu, para a Vila do Conde. Lá, almoçamos no Restaurante Romando. Em meio a um casario secular, surge uma obra de refinado bom gosto.

Salão bonito, cardápio moderno com uma releitura da tradicional cozinha lusitana e a impecável atenção de um garçom brasileiro, pernambucano, que nestas terras exercia a profissão de fisioterapeuta, e virou um excelente profissional à mesa em Vila do Conde.

Em um salão abaixo há outro restaurante, mais moderno, especializado em sushi, e que só funciona no período noturno. O que mais chamou minha atenção em meio a todo o requinte da decoração desse espaço foi sua magistral e gigantesca carta de vinhos.

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Nunca imaginei que encontraria nesse local exemplares de Romanée Conti, passando pelos grandes de Bordeaux, toda a linha de vinhos Premium de Portugal, como Niepoort e Domingos Alves de Sousa, e terminando com diversas safras de Barca Velha, além de espetaculares vinhos do Porto. Os melhores da Itália, Espanha, França, Alemanha e Estados Unidos também estão presentes. Trata-se de uma Garrafeira de tirar o fôlego!

Findo o almoço, fomos dar uma volta ao sopé do não menos belo e esplendoroso Convento de Santa Clara, uma obra gigantesca de requintado bom gosto que se transformou no “Ex-Libris” da cidade. Em uma viela estreita, onde um carro teria dificuldade de passar, vem descendo Dirk Niepoort, um dos grandes nomes do vinho de Portugal, com uma caixa de vinhos embaixo do braço.

Para que o leitor entenda o que significa, àquela hora de um sábado, encontrar Dirk Niepoort em Vila do Conde é o mesmo que em um domingo às 7 da matina, quando estiver indo para a missa, encontrar pelo caminho o papa Francisco que lhe convida para assistir a missa juntos.

É de perder o fôlego!

Dirk, com a naturalidade de sempre, que é sua maior marca, diz-me:

– Vou ali naquele barzinho resolver um assunto, vá até lá para tomarmos uns copos.

Convite feito, logo aceito. Em um pequeno bar, vazio de clientes, sentei-me com Dirk Niepoort e, em minutos, já estávamos degustando um vinho seu da Bairrada. Dirk apaixonou-se pela Região da Bairrada e lá tem elaborado grandes vinhos.

Logo em seguida, surge uma 1/1 garrafa de Porto acompanhada da seguinte frase:

Será o primeiro brasileiro a provar um Porto Vintage 2017.

Como assim? Um Porto Vintage é sempre declarado entre os meses de maio e junho, após dois anos de seu nascimento, e nós estávamos em fevereiro. Sem titubear, Dirk afirmou:

– De fato, mas este será o Vintage 2017 da Casa Niepoort, e pode anotar, será um verdadeiro Romanée Conti dos vinhos do Porto!

Quem sou eu para discordar, ele sabe muito bem o que fala quando o assunto é vinho do Porto. Provei com muito gosto essa novidade, não há nada de fruta vermelha madura pujante em seu sabor. Há, sim, um forte aroma que nos reporta a menta, cânfora e vegetais, com uma finesse na boca, álcool bem casado e elegância surpreendente em seu retrogosto.

Uma obra de arte à parte de tudo o que já provei em Vintage novos. Dentro de sua exuberante juventude, pode e deve ser provado jovem, e não me arrisco a fazer previsões quanto ao seu envelhecimento. Acredito que o mercado inglês até estranhe esse vinho, mas o americano vai endeusá-lo.

Mais uma surpresa nos aguardava, um Porto Colheita 1983 que passou somente dois anos em barricas de carvalho e o restante do tempo repousou nas famosas bombonas (grandes vasilhames de vidro)  tão utilizadas pela Casa Niepoort há séculos.

Esse vinho foi o exemplo mais nítido de um Tawny natural, nascido da decantação espontânea, sem ter passado por madeira por muito tempo quando fatalmente faria uma oxidação mais pujante. Para mim, foi uma grande novidade tal prova, e olha que nos últimos 50 anos de minha vida o vinho do Porto tem sido meu companheiro diário.

Assim, um sábado nublado e frio transformou-se em um radiante dia, digno de um roteiro de filme de Hollywood.

Dirk Niepoort
* Coluna publicada na edição 190 de Prazeres da Mesa

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