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Desafios de Chardonnay e Pinot Noir

Gianni Fabrizio, um dos mais renomados críticos de vinho da Itália passou uma semana no Brasil organizando grandes eventos

Gianni Fabrizio, que divide com Marco Sabellico o comando da elaboração do guia de vinhos mais importante da Itália, o Gambero Rosso, esteve no Brasil para uma série de eventos. Italiano que viveu muitos anos na Suíça e que conhece a Borgonha como poucos, ele nos propiciou dois momentos muito especiais. Isso quando mostrou um conhecimento profundo sobre grandes vinhos de seu país. Além de sua paixão pelas duas castas que brilham na Borgonha, a Pinot Noir e a Chardonnay. O primeiro evento, organizado pela importadora Mistral, foi um challenge de Chardonnay pelo mundo; e o segundo, organizado por uma confraria de amantes do vinho, foi um desafio entre grandes vinhos do Piemonte e alguns dos mais renomados Pinot Noir da Borgonha.

O painel que colocou frente a frente alguns dos mais representativos Chardonnay do Velho e do Novo Mundo. Os primeiros se destacam pela elegância e profundidade, enquanto os exemplares do Novo Mundo primaram por vigor e força.

Chardonnay pelo mundo

Se me perguntarem qual a uva que faz o melhor vinho tinto do mundo, eu hesitaria em responder. Mas se a mesma pergunta fosse para o melhor vinho branco, seria bem mais fácil a resposta. Com todo respeito à grandíssima Riesling ou à refrescante Sauvignon Blanc, entre outras, não há dúvida de que a Chardonnay seja a rainha entre as uvas para produzir os melhores brancos do planeta. Outros pontos importantes são: a Chardonnay se adaptou em diversas regiões do mundo afora; e pode produzir tanto vinhos de guarda quanto os prontos para consumo.

A casta superversátil tem origem na França, na lindíssima Borgonha. Produz vinhos frutados, em algumas ocasiões cremosos, e com marca mineral em outras, especiados, e, muitas vezes, a combinação de todas essas características. O que de fato diferencia os vinhos dessa casta são o terroir e a influência do carvalho na vinificação e no envelhecimento.

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A degustação

Pois bem, além da presença de um grupo seleto de enófilos, de Ciro Lilla, da Mistral, e de Gianni, tivemos a visita do produtor do Piemonte Paolo Coppo, da Vinícola Luigi Coppo. Tínhamos à mesa Chardonnay de três continentes. Do Velho Mundo, a presença de França, Itália e Espanha; das Américas, Estados Unidos e Argentina; e da Oceania, a Nova Zelândia.

Uma experiência única, pois os vinhos estavam todos espetaculares. Vale ressaltar aqui que tínhamos o melhor de cada país. O mais interessante que devemos destacar é a coragem de Paolo Coppo em comparar seu branco TOP, o incrível Monteriolo 2011, duelando com um dos mais desejados Chardonnay do mundo, o grande Corton-Charlemagne, no caso do Domaine Bonneau du Martray, um dos mais expressivos Domaines de toda a AOC, de uma safra extraordinária, a 2009.

A propósito, esse Corton estava maravilhoso, reluzente e com uma acidez vibrante. Tudo na medida certa. Final de boca quase infinito. Palmas para a coragem de Paolo, pois foi emocionante constatar quão profundo e excepcional é o Chardonnay de sua terra natal, o Piemonte.

O Monteriolo é, ao lado do Gaja & Rey, de Angelo Gaja, o maior expoente de Chardonnay da Itália. O espanhol de Navarra, Coleccion 125 2013, de Julian Chivite, é sem dúvida o melhor Chardonnay da terra de Cervantes. Muito rico e saboroso.

A briga dos representantes do Novo Mundo foi emocionante. Mostrando de maneira geral mais vigor e força que os europeus. Podemos assegurar que o Ridge Vineyards Estate Chardonnay 2015, de Santa Cruz Mountains (sul de San Francisco, nas cercanias de San Jose), estava firme, rico e com acidez marcada.

Do Hemisfério Sul, o brilho não foi menos impactante. De estilos distintos, tivemos duas obras-primas. De um lado, o Felton Road Chardonnay Block 2, de Central Otago, Ilha Sul da Nova Zelândia, e do outro, o mendocino Catena Chardonnay White Stones, ambos da safra 2014. De estilos diferentes e ambos riquíssimos, brilharam e encararam de igual para igual os grandes exemplares à mesa.

Por fim, não podemos deixar de mencionar que a Chardonnay é importante componente na produção de espumantes ao redor do mundo, com destaque para os champanhes. Viva a Chardonnay que brilha em vários cantos do planeta.

Tintos elegantes

Para os amantes de vinhos elegantes, repletos de finesse e profundidade, não há como não ranquear as duas uvas tintas que mais vinhos desse estilo produzem. A disputa fica entre a grandíssima Pinot Noir, representando a Borgonha, na França, e a marcante Nebbiolo, do Piemonte, na Itália. É unanimidade entre os enófilos com maior “litragem” sempre comparar vinhos produzidos a partir dessas duas grandes castas. Depois de muito estudo, tínhamos à mesa dez tintos de grandes produtores dos dois lados, sendo cinco do Piemonte e cinco da Borgonha, de diversas safras entre os anos 1999 e 2007. Decidimos colocar entre os Barolo, um grandíssimo Barbera para finalizar o tasting.

Gianni deu uma verdadeira aula, pois conseguiu seu objetivo de provar que, se um enófilo quer vinhos elegantes de verdade, a dupla Pinot Noir e Nebbiolo é imbatível e, de quebra, mostrar-nos um Barbera inesquecível.

Os vinhos degustados representando o Piemonte

Barolo Bricco Boschis Vigna San Giuseppe Cavallotto 2001; Barolo Lazzarito Vietti 2001; Barolo Monfortino Giacomo Conterno 2002; Barolo Bartolo Mascarello 2006 e o coringa, o Coppo Barbera D’Asti Riserva della Famiglia 2004. Representando a Borgonha: Clos de Vougeot Jean Grivot 1999;  Vosne-Romanée Les Suchots Prieure-Roch 2005; Clos de la Roche Dominique Laurent 2005; Gevrey-Chambertin aux Combottes Domaine Dujac 2006 e Chambertin Domaine Trapet 2007.

A degustação

Os confrades vibraram e, como era de esperar, todos os vinhos estavam íntegros e em perfeito estado para consumo, obviamente uns mais maduros que outros. Entre os italianos, tivemos mais equilíbrio com todos performando muito bem. Também como era de esperar, os Barolo estavam mais sólidos e estruturados.

Foi emocionante provar o raríssimo Monfortino 2002 de Giacomo Conterno. Apesar de jovem, estava cheio de vida, delicioso e com um firme final. Entre os Barolo foi incrível comparar dois vinhos fenomenais: o Barolo Bricco Boschis Vigna San Giuseppe Cavallotto 2001 e o Barolo de Bartolo Mascarello 2006. Fabulosos, destacaram-se entre os Nebbiolo com mais de 10 anos de evolução.

O Cavallotto foi o melhor vinho da noite, mesmo considerando os Borgonha. O Barbera 2004, de Coppo, que foi o coringa, mostrou com precisão aonde essa casta pode chegar. Espetacular. Um tinto que emociona.

Já entre os Borgonha, três Pinot Noir protagonizaram uma “briga” incrível. A decisão do campeão foi entre o Vosne-Romanée les Suchots Prieure-Roch 2005, o Clos de la Roche Dominique Laurent 2005 e Gevrey-Chambertin aux Combottes Domaine Dujac 2006. Quase um empate que só o photochart revelou o ganhador… “Por raspa de focinho”, o Vosne-Romanée Prieure-Roch les Suchots 2005 levou o laurel de campeão entre os Borgonha, por seu estilo único e uma marca de pitanga impressionante.

Uma prova que fica na memória de quem participou e que serve de inspiração para o  leitor fazer as próprias comparações.

 

* reportagem publicada na edição 185 (janeiro de 2019) de Prazeres da Mesa

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